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A dona da Gillette e da Pampers cortou US$ 200 milhões em anúncio digital e o alcance subiu 10%

Efetividade & Orçamento · 5 de outubro de 2026 · Marketing Baseado em Evidência
Em 2017, a Procter & Gamble cortou US$ 200 milhões em mídia digital e, segundo o CMO Marc Pritchard, aumentou o alcance em 10%. A explicação dada pela empresa foi que o maior desperdício estava no excesso de frequência: a mesma pessoa via de 10 a 20 anúncios por mês. Para uma empresa de médio porte, a lição prática é medir alcance e frequência antes de concluir que o problema é falta de verba.

O problema: quando o resultado cai, a resposta é sempre mais verba

Em reunião de resultado, a conversa costuma seguir um roteiro. O custo por lead subiu, o volume caiu, e a proposta é aumentar o investimento para "ganhar escala". Quase nunca alguém pergunta para quem esse dinheiro a mais vai ser mostrado.

As plataformas de anúncio entregam o orçamento de qualquer jeito. Se o público é pequeno, ou se o algoritmo concentrou a entrega em quem já clicou antes, a verba extra vira mais impressões para as mesmas pessoas. O relatório mostra mais impressões, e a empresa não fala com ninguém novo.

O que a evidência mostra

O caso da P&G

A Procter & Gamble, dona de marcas como Gillette, Pampers e Ariel, é um dos maiores anunciantes do mundo. Em 2017, a empresa cortou US$ 200 milhões de investimento em mídia digital. Em fala na Association of National Advertisers, em 2018, o CMO Marc Pritchard disse que os cortes eliminaram cerca de 20% do marketing ineficaz e que o alcance aumentou 10%. Parte da verba foi realocada para canais com mais alcance, como TV, áudio e e-commerce.

No mesmo ano, na conferência VivaTech, Pritchard foi mais específico: as marcas da P&G estavam mostrando de 10 a 20 anúncios por mês para a mesma pessoa, e a meta para algumas marcas passou a ser cerca de 3 por mês. Ele resumiu o diagnóstico dizendo que a empresa estava irritando os consumidores, e repetiu em várias ocasiões que o excesso de frequência era o maior desperdício da mídia digital da empresa.

O que a teoria de mídia já dizia

A ideia de que poucas exposições bastam é antiga. Herbert Krugman, pesquisador da General Electric, propôs em 1972 que três exposições a um anúncio já cumprem as funções principais: na primeira a pessoa entende do que se trata, na segunda avalia, e da terceira em diante o anúncio vira lembrete. Nos anos 1990, Erwin Ephron popularizou a lógica de "recency planning": como só uma fração pequena do mercado está comprando em cada semana, vale mais manter presença contínua e com alcance amplo do que concentrar muitas exposições em pouca gente.

O Ehrenberg-Bass Institute chega ao mesmo lugar por outro caminho: marcas crescem principalmente ganhando compradores novos e ocasionais, o que exige alcance. Frequência alta num grupo pequeno é o oposto disso.

O mecanismo: por que a frequência sai do controle

Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês

1. Puxe alcance e frequência dos últimos 30 dias

No gerenciador de anúncios da Meta, as colunas "Alcance" e "Frequência" existem em qualquer conta. Olhe por campanha e no total da conta. Se a frequência mensal no público frio passa de 6 ou 8, vale investigar antes de aumentar a verba.

2. Faça a conta do público

Exemplo: a empresa investe R$ 15 mil por mês com CPM médio de R$ 30. Isso compra 500 mil impressões. Se o alcance único foi de 50 mil pessoas, a frequência média é 10. Dobrar a verba para R$ 30 mil sem mexer no público provavelmente leva a frequência para perto de 20, e não dobra o número de pessoas novas.

3. Amplie o público antes de amplificar a verba

Novas regiões, novos ângulos de criativo que falem com outros momentos de compra, outros canais (YouTube, Google, mídia local). O objetivo é aumentar o número de pessoas que conhecem a empresa, não o número de vezes que as mesmas pessoas a veem.

4. Separe remarketing de aquisição

Remarketing com frequência alta pode fazer sentido por poucos dias, para quem visitou a página de preço. O problema é quando a conta inteira funciona como remarketing sem que ninguém tenha decidido isso.

5. Acompanhe alcance único como métrica de reunião

Ao lado de CPL e custo por reunião, coloque no relatório mensal quantas pessoas diferentes a empresa alcançou. Se esse número está parado enquanto a verba sobe, o dinheiro está sendo gasto em repetição.

Limitações e contexto

Os números da P&G vêm de declarações públicas do próprio CMO, não de um estudo com metodologia aberta. A empresa também fez outras mudanças no mesmo período, como trazer parte da compra de mídia para dentro de casa e cortar veículos com problemas de fraude e de segurança de marca, então não dá para atribuir todo o ganho à redução de frequência.

Não existe uma frequência ideal universal. A regra de três exposições de Krugman é uma hipótese sobre como a pessoa processa o anúncio, não um número calibrado para cada categoria. Produto de decisão longa e alto ticket pode precisar de mais contato ao longo de meses. O ponto é medir e decidir, em vez de deixar a frequência subir sem ninguém perceber.

E a escala é muito diferente. A P&G tem alcance de massa; uma PME brasileira pode ter um público total pequeno, em que alguma repetição é inevitável. Mesmo assim, o raciocínio vale: verba nova deveria comprar gente nova.

Conclusão

Um dos maiores anunciantes do mundo cortou US$ 200 milhões e passou a alcançar mais gente, porque o dinheiro estava sendo gasto mostrando o mesmo anúncio dezenas de vezes para as mesmas pessoas. Antes de concluir que a sua empresa precisa de mais verba, vale descobrir quantas vezes cada pessoa já viu o seu anúncio. Em muitas contas, a resposta mostra que o dinheiro já existe e está indo para o lugar errado.

Referências

  1. Adweek. "When Procter & Gamble Cut $200 Million in Digital Ad Spend, It Increased Its Reach 10%". 2018.
  2. Marketing Dive. "P&G's Pritchard cops to company overloading consumers with ads". 30 mai. 2018 (fala na VivaTech 2018).
  3. Marketing Week. "P&G puts focus on reach: It's a more important measure than spend". 2018.
  4. Krugman, H. E. "Why Three Exposures May Be Enough". Journal of Advertising Research, 1972.
  5. Ephron, E. "Recency Planning". Journal of Advertising Research, 1997.
  6. Sharp, B. How Brands Grow. Oxford University Press, 2010.

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