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O humor sumiu da propaganda e levou junto a lembrança da sua marca

Criativo & Atenção · 28 de setembro de 2026 · Marketing Baseado em Evidência
A base global da Kantar mostra que a proporção de anúncios usando humor como estratégia criativa caiu de 53% para 34% desde o ano 2000. A queda coincide com crises econômicas e com o aumento do controle de risco dentro das empresas, não com evidência de perda de eficácia. Para uma empresa pequena, que decide sem comitê, o recuo do mercado abriu um espaço de diferenciação barato.

O problema: o setor inteiro fala igual

Pegue os cinco maiores concorrentes do seu mercado e coloque os materiais lado a lado. Em boa parte dos setores de serviço, a diferença entre eles cabe no logotipo: mesma promessa de excelência, mesma foto de equipe sorrindo, mesmo tom respeitável e esquecível.

Esse tom não foi escolhido por evidência. Foi escolhido porque é o que passa mais fácil na aprovação interna e o que menos gera desconforto. E, como todo mundo aplica o mesmo critério, o resultado agregado é um mercado uniforme.

O que a evidência mostra

A queda, medida

A Kantar, que mantém uma das maiores bases mundiais de teste de anúncios (a base Link), reporta que a proporção de peças que usam humor como estratégia criativa caiu de 53% para 34% globalmente, considerando todos os canais, desde o ano 2000. A empresa registra quedas mais acentuadas em torno da crise financeira de 2008 e da pandemia, e uma reversão parcial da tendência a partir de 2023.

A Kantar também aponta que a proporção de anúncios com algum tipo de humor na base que ela pesquisa é bem menor que a proporção entre os vencedores dos seus prêmios de eficácia criativa, o que indica que o recurso está sub-representado em relação ao desempenho que apresenta.

A condição para funcionar

O ponto que a mesma análise enfatiza, e que costuma ser ignorado por quem tenta copiar o formato: o humor precisa estar conectado à marca. Quando a piada e a marca estão amarradas, o efeito multiplica tanto no curto quanto no longo prazo. Quando a piada é apenas entretenimento colado no produto, o espectador se diverte e não registra de quem era o anúncio.

Por que isso importa para memória

O papel do humor no negócio não é fazer rir, é conquistar atenção voluntária e gerar codificação emocional, que é o que faz a lembrança durar. A evidência acumulada nos bancos de efetividade do IPA, sistematizada por Binet e Field, mostra que campanhas com apelo emocional superam as puramente racionais nos efeitos de longo prazo. Humor é um dos caminhos mais eficientes para esse apelo, e um dos poucos que o espectador aceita assistir por vontade própria.

O mecanismo: por que o humor sumiu mesmo funcionando

O que eu vejo na prática

O padrão que mais se repete em diagnóstico é a empresa de serviço com boa entrega, cliente satisfeito e uma comunicação que não tem digital nenhuma. Quando pergunto por que o material é assim, a resposta em geral é uma variação de "no nosso mercado o cliente é conservador". O detalhe é que o concorrente diz exatamente a mesma frase, e é por isso que os dois são intercambiáveis na cabeça de quem compra.

Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês

1. Use o humor da experiência do cliente, não piada genérica

O que dá risada de reconhecimento é a cena que o cliente vive: a planilha que ninguém atualiza, a reunião que podia ser um e-mail, o fornecedor que some depois da assinatura. Humor de situação, vindo do problema real que você resolve, não precisa de roteirista.

2. Amarre a piada na marca

A marca precisa aparecer cedo e fazer parte do desfecho. Se der para trocar o logotipo no final e a peça continuar igual, o humor está solto e o benefício vai para a categoria, não para você.

3. Repita o mesmo personagem ou formato

Um dispositivo recorrente (uma figura, um bordão, um tipo de cena) faz a memória acumular. Trocar de piada e de formato a cada campanha joga fora a parte mais valiosa, que é a associação.

4. Teste barato antes de gastar

Publique a ideia em formato simples, orgânico, e observe compartilhamento e comentário espontâneo antes de produzir a versão cara. Reação morna em orgânico raramente melhora com produção.

5. Defina o limite antes, não depois

Humor com o problema, com a rotina, com a própria empresa. Nunca com o cliente, com o concorrente nominalmente, nem com qualquer grupo de pessoas. Com essa regra escrita, a decisão deixa de depender de coragem no dia.

Limitações e contexto

Os dados da Kantar vêm de uma base proprietária de testes de anúncios, majoritariamente de grandes anunciantes e mídia paga, com peso maior para categorias de consumo. Extrapolar diretamente para serviço B2B brasileiro exige cautela: o volume de peças testadas nesse recorte é muito menor.

Humor também não é adequado a todo momento da jornada nem a toda categoria. Em temas sensíveis, em comunicação de crise e em conteúdo técnico de decisão, o tom leve pode reduzir a credibilidade. E a evidência é consistente em um ponto: humor mal executado ou desconectado da marca tem desempenho pior que o anúncio neutro, não melhor.

Por fim, a reversão recente da tendência significa que a janela de diferenciação não fica aberta para sempre. Quando o mercado voltar a usar humor em escala, a vantagem de ser o único engraçado da categoria diminui.

Conclusão

O humor não caiu pela metade na propaganda porque parou de funcionar. Caiu porque é difícil de aprovar em estrutura grande, e a estrutura grande decide por consenso. Quem decide sozinho tem aí uma vantagem rara: pode soar diferente de todo mundo em um mercado que escolheu soar igual, desde que a piada esteja amarrada na marca e repetida tempo suficiente para virar lembrança.

Referências

  1. Kantar. "Time to get serious about humour in advertising". Kantar Inspiration, 2024 (base Link, todos os canais, série desde 2000).
  2. Kantar. "Who's laughing now? Let's stop the decline of humour in advertising". Kantar Inspiration.
  3. Binet, L.; Field, P. "The Long and the Short of It: Balancing Short and Long-Term Marketing Strategies". IPA, 2013.
  4. Nelson-Field, K. "The Attention Economy and How Media Works". Palgrave Macmillan, 2020.

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