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Anúncio que ninguém clica ainda está trabalhando: o que 208 experimentos dizem sobre familiaridade

Marca & Memória · 25 de setembro de 2026 · Marketing Baseado em Evidência
Robert Zajonc demonstrou em 1968 que a mera repetição da exposição a um estímulo melhora a atitude em relação a ele, e confirmou o efeito fora do laboratório publicando palavras turcas sem sentido em jornais de duas universidades. A meta-análise de Bornstein, com 134 estudos e 208 comparações, encontrou um efeito consistente. A implicação prática é desconfortável para quem decide mídia por clique: boa parte do retorno de uma campanha acontece em pessoas que nunca clicaram.

O problema: o painel só mostra quem agiu hoje

A régua de decisão mais comum em empresa do nosso porte é simples: o que teve clique fica, o que não teve sai. É uma régua confortável porque o dado está pronto na tela e não exige discussão.

O problema é que ela mede uma coisa só, que é a reação imediata de quem já estava em processo de decisão. Tudo que acontece na cabeça de quem viu, registrou e seguiu a vida fica fora. E, no seu mercado, essa é a maioria das pessoas.

O que a evidência mostra

O experimento original

Robert Zajonc publicou em 1968, no Journal of Personality and Social Psychology, o artigo "Attitudinal Effects of Mere Exposure". A hipótese testada era direta: a mera exposição repetida de uma pessoa a um estímulo é suficiente para melhorar a atitude dela em relação àquele estímulo.

Zajonc reuniu quatro tipos de evidência, entre elas a relação entre a frequência de uso de palavras e a conotação afetiva delas, e experimentos em que a frequência de exposição a palavras sem sentido e a símbolos era manipulada. O padrão se repetiu: quanto mais vezes a pessoa tinha visto, melhor a avaliação. Nenhum argumento persuasivo foi apresentado em momento nenhum.

O teste em campo, com mídia paga de verdade

No ano seguinte, Zajonc e D. W. Rajecki publicaram na Psychonomic Science um experimento de campo que interessa particularmente a quem compra mídia. Eles usaram anúncios de display nos jornais de duas universidades (Michigan e Michigan State) para expor cinco palavras turcas em frequências diferentes ao longo do tempo. Depois, distribuíram questionários com aquelas palavras e uma escala de "bom ou ruim" para a população do campus. Participaram 1.141 pessoas.

O resultado acompanhou a frequência: as palavras mais veiculadas receberam as melhores notas, as menos veiculadas as piores, e as intermediárias ficaram no meio. Uma campanha de mídia sem oferta, sem mensagem e sem chamada para ação moveu a atitude de mais de mil pessoas.

A meta-análise

Em 1989, Robert Bornstein publicou no Psychological Bulletin uma revisão com meta-análise cobrindo a pesquisa de 1968 a 1987: 134 estudos e 208 comparações do efeito. A conclusão é que o efeito é confiável e se sustenta através de tipos diferentes de estímulo, com magnitude moderada e variando conforme fatores como complexidade do estímulo, duração da exposição e intervalo entre a exposição e a avaliação. Um achado que costuma surpreender: estímulos apresentados rápido demais para serem reconhecidos conscientemente produziram efeitos maiores, não menores.

O mecanismo: por que funcionar sem clique faz sentido

A explicação mais aceita é a fluência de processamento. Cada nova exposição torna o estímulo mais fácil de processar pelo cérebro, e essa facilidade é sentida como uma sensação levemente positiva. Como a pessoa não sabe de onde vem a sensação, ela atribui ao objeto: "não sei por quê, mas essa marca me parece mais confiável".

Isso tem duas consequências comerciais diretas. A primeira é que o efeito não depende de a pessoa lembrar de ter visto o anúncio, o que torna qualquer pesquisa do tipo "onde você nos conheceu?" uma medida ruim. A segunda é que o efeito está guardado para quando a necessidade aparecer, que pode ser daqui a meses.

O que eu vejo na prática

O padrão recorrente em diagnóstico é a empresa que corta a campanha de alcance no aperto de caixa, mantém só a campanha de conversão, e alguns meses depois registra aumento no custo por lead sem conseguir explicar. A leitura dela é que "a plataforma piorou". Uma leitura mais provável é que a campanha de conversão estava colhendo uma demanda que a campanha de alcance ajudava a criar, e que ninguém está mais alimentando.

Aplicação prática para uma empresa de R$ 60 mil a R$ 500 mil por mês

1. Separe o orçamento que colhe do orçamento que semeia

Antes de discutir criativo, decida a divisão. Se hoje 100% da verba está em campanha de conversão, comece reservando algo entre 20% e 30% para presença continuada com o público certo. A referência de 60/40 de Binet e Field é o destino de longo prazo, não o primeiro passo.

2. Cobre da campanha de exposição as métricas dela

Alcance sobre o público-alvo definido, frequência por pessoa no período e consistência de veiculação ao longo dos meses. Pedir CPA para a campanha de exposição é como pedir faturamento para o setor de produção.

3. Mantenha os mesmos elementos visíveis em tudo

O efeito precisa de um estímulo estável para se acumular. A mesma cor, o mesmo rosto, o mesmo tipo de abertura, a marca aparecendo cedo. Campanha nova a cada mês reinicia a contagem.

4. Prefira presença regular a picos

Quatro semanas de investimento alto e oito meses de silêncio entregam menos que doze meses de presença menor e constante, porque o efeito depende de repetição distribuída no tempo.

5. Meça o efeito de outro jeito

Volume de busca pela marca, proporção de leads que chegam já dizendo o nome da empresa, taxa de resposta em abordagens comerciais frias e teste de desligar a campanha em uma região por algumas semanas, comparando com outra. Nada disso está no relatório de cliques.

Limitações e contexto

O efeito de mera exposição é robusto, mas modesto em magnitude, e não é infinito: a partir de certo número de repetições o ganho satura e, em alguns contextos, a exposição excessiva ao mesmo estímulo produz tédio e reação negativa. A pesquisa também foi feita majoritariamente com estímulos neutros e desconhecidos. Exposição repetida a algo de que a pessoa já não gosta não conserta a opinião dela, e pode reforçar.

Além disso, esses experimentos medem atitude, não venda. Ninguém demonstrou em laboratório que a nota de simpatia vira pedido no mês seguinte. O que sustenta a ponte para o negócio são os bancos de efetividade, como o IPA, que mostram retorno maior em campanhas com presença sustentada. Tratar o efeito como licença para anúncio sem qualidade seria uma leitura errada: o que se acumula é a marca reconhecível, não o barulho.

Conclusão

Cinquenta anos de pesquisa mostram que ser visto repetidamente já move alguma coisa, mesmo sem clique, sem lembrança consciente e sem argumento. Isso não torna a campanha de conversão dispensável, mas torna insuficiente a régua que decide mídia olhando só quem agiu hoje. Antes de cortar a campanha que "não converte", vale saber o que ela está construindo e quanto tempo o seu mercado leva para comprar.

Referências

  1. Zajonc, R. B. "Attitudinal Effects of Mere Exposure". Journal of Personality and Social Psychology, vol. 9, n. 2, parte 2, 1968.
  2. Zajonc, R. B.; Rajecki, D. W. "Exposure and Affect: A Field Experiment". Psychonomic Science, vol. 17, n. 4, 1969.
  3. Bornstein, R. F. "Exposure and Affect: Overview and Meta-Analysis of Research, 1968-1987". Psychological Bulletin, vol. 106, n. 2, 1989.
  4. Binet, L.; Field, P. "The Long and the Short of It: Balancing Short and Long-Term Marketing Strategies". IPA, 2013.

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